quinta-feira, 11 de agosto de 2022

Sobre bagunças, dúvidas e minha mulher de vermelho

    Avril Lavigne toca um emo pop acolhedor e não tão antigo que diz "I still burn for you, like the sun burns in the sky. I still burn for you" ("Eu ainda queimo por você, como o sol queima no céu. Eu ainda queimo por você"). Uma parte minha sonha em cantar essa música para alguém com quem eu já estou por alguns anos e lembrar desse começo fofo e mágico que todo mundo gosta mas que é uma zona. Lembro que um dos argumentos que eu usava, e ainda uso, para não conhecer pessoas novas é esse começo. 

- O que mudou?
    
    Sinto um olhar de curiosidade, com uma certa ternura, enquanto você senta na cama, na minha frente. Você não é mais a mesma, porque talvez eu não seja mais a mesma. Não existe mais uma briga, uma guerra. Incrível como eu cansei de brigar com você quando eu aceitei que nós somos uma só. Seu vestido continua lindo, aliás.

- Em mim não muita coisa em relação à conhecer pessoas, só que hoje eu vejo uma lista de coisas que eu não aceito mais.
- Você se conhece mais. 
- Basicamente. 

    Você encosta na parede enquanto eu sinto em você uma dúvida que existe em mim.

- Então por que a bagunça?
- Porque algumas coisas voltaram e preencheram vazios que eu nunca consegui preencher nesses anos...
- O quanto isso pesa?
- De verdade?
- Por favor.
- Muito mais do que eu gostaria.

    Sinto seu cheiro. Sua voz dizendo que gostou de me ver, que ficou feliz por eu ter aparecido, que ficou triste quando o plano simples precisou ser lapidado. Acho ótimo o quanto você não sabe o poder que tem sobre mim. Ou não sabia até agora. 

- O que você quer fazer sobre isso?
- Eu não tenho a MENOR ideia. Eu me sinto completamente perdida, completamente voando no meio do espaço. Total a cena do Tony Stark flutuando no começo de Vingadores: Ultimato.
- Quem vai ser sua Capitã Marvel?

    Não esperava essa pergunta. Paro por alguns instantes enquanto eu faço a lista de pessoas que têm esse poder, ou que eu dei esse poder.

- Bom. Eu sou a única pessoa que consigo ser a minha própria Capitã Marvel...
- E você não acha isso triste? Ser a heroína de todo mundo, inclusive a sua?

    Nossa, hoje tá complicado.

- Nunca parei para pensar nisso... Mas, sim, isso é triste.
- E por que você não divide seu manto de super herói?
- Eu não confio nas pessoas dessa forma.
- Por que não?
- Porque quando eu precisei que alguém fosse a minha Capitã Marvel, ninguém foi. E eu sei que as pessoas podem mudar, sabe. Eu sei que, o certo, seria eu aprender a confiar na minha nave ao invés de ficar precisando de heróis, mas eu não mudei tanto...
- Ninguém muda tanto...

    Bate uma tristeza que eu não entendo direito de onde vem. Eu lembro do meu possível começo bagunçado onde tudo é uma descoberta e tudo é uma folha em branco.

- Eu odeio folha em branco.
- Eu sei.
- Eu odeio não reconhecer padrões, não conhecer os sinais. Odeio não ter base nenhuma de nada e ter que ficar confiando em conversas pela metade e ficar caçando tom de voz para me convencer que eu não sou uma idiota. 
- Isso é medo ou frustração?
- Isso é bagunça...

 

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