sábado, 1 de novembro de 2025

Sobre o dia de finados - e a ausência da minha malemolência latina

    Dentre o tantão de coisas que essa minha cara pálida esconde, um é o meu orgulho de falar que eu sou latina. Acho meio maluco mas eu facilmente sairia no tapa com um brasileiro desprovido de lógica e inteligência que diz que não somos latinos por não falarmos espanhol (nada que uns aninhos de curso e uma pesquisa curta não resolvam). E agora a pouco eu me lembrei que aquele ziriguidum eu também não tenho. Aquela energia meio Sofia Vergara, meio Shakira, meio Juliana Alves, sabe. Aquela leveza massa e tal. É, não tenho. Por ter jogado bola por anos e ter crescido no meio de um monte de moleque e sempre me sentindo constrangida? Possível. Por ter aprendido a ouvir samba só depois dos 20 e, nisso, eu já tinha o quadril endurecido? Pode ser. Por ter sido uma adolescente emo? Talvez. 

    E eu nem sei se você sabia que eu fui uma adolescente emo.

    Lembro que uma vez você falou que não gostava mais de Rita Lee. Que curtiu na "juventude" mas que achava meio blé e, por isso, não curtia mais. Até hoje eu não sei exatamente que tipo de música você curtia mas eu sempre lembro de você quando toca Engenheiros do Hawaii, não sei por quê. Talvez seja por eu ter me afundado em frases como "Eu que não fumo, queria um cigarro. Eu que não amo você envelheci 10 anos ou mais em um único mês". 

Dizem as más línguas que eu não envelheci um centímetro, mas sobre o cigarro eu não posso garantir.

Cá entre nós, não sei diferenciar muito essa melancolia da melancolia emo. Talvez seja só um vocalista tatuado, uma franja grudada na cara, uma sexualidade duvidosa. (Um adendo: entre um hétero raiz e um homem meio bicha, eu prefiro um homem meio bicha. Mais uma coisa sobre mim que minha cara pálida não diz - e que você não sabia até então).

    Eu não sei direito o que mudou nesses meses. Na verdade, eu continuo meio perdida, só que agora com uma pequena agenda que eu ignoro de leve enquanto amasso meu pacotinho de algodão e me apaixono e desapaixono pelo meu casal turbulento favorito - talvez eu tenha uma coisa por mulheres morenas míopes tatuadas, e não quero me curar.

A fuga continua firme e forte. A culpa também.

Mas isso, nem para você, é novidade.


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sexta-feira, 18 de julho de 2025

Sobre coisas - todas elas e nem uma delas

     Ouço Happy Home nesse momento (não sei se já foi falado em algum texto anterior mas o nome do blog mudou por causa dessa música, por aqui ser "meu lar feliz"). Às vezes tenho meus cinco minutos e sinto como se eu tivesse 20 e poucos e estivesse ouvindo a música pela primeira vez. Talvez, atualmente, tenho pensado muito sobre sentir algumas coisas pela primeira vez ou lembrando da sensação do novo, do senti algo novo, do sentir de novo.

Algumas coisas eu sinto muita falta de sentir de novo, outras eu estou lembrando como é, e se pudesse escolher não sentir, escolheria.

    Talvez por traumas, talvez por preguiça da construção, talvez por não querer trazer alguém para essa casa mental toda valorizada - pero no mucho - e organizada - pero tan poco -. Ou talvez por um ego enorme de quem não quer sair da rotina dentro da própria cabeça e se abrir a uma lista aí de possibilidades. Só que algo em mim quer.

Acho que aqui que entra o problema.

    Às vezes eu queria mostrar umas coisas aleatórias, tipo o repertório na parede do quarto ou a gravata do Batman, para eu sentir que era óbvio que eu jamais seria uma opção ou, muito menos, uma escolha. Uma certeza negativa seria exatamente a melhor coisa para eu não precisar pegar todos os meus medos e adestrá-los nem precisar lidar com todos os meus excessos que destruíram - e sobraram - em quase todas as minhas relações, sejam elas românticas ou não.

    Uma enorme parte minha tem medo do eu desequilibrado que habita esse mesmo corpo, que se protege, se sustém, se blinda. Um ataque sempre pronto que não precisa nem de muito esforço para colocar meu lado adulto e maduro numa gavetinha enquanto destrói toda a organização dos livros da sala de controle. Será que vale?

    Como é difícil viver com amor e coragem.




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