sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Apaixone-se

Segundo o dicionário, "apaixonar" é "despertar, inspirar paixão ou amor ardente; encher-se de paixão, de entusiasmo", sendo que em nenhum momento isso é levado à ideia de romance. Acho que devido ao fato de que defendemos a ideia de que estamos em uma sociedade liquida, se apaixonar é sinônimo de ser idiota, de "gostar sozinho". Mas, amores, não é. 

Vejo a ideia de estar apaixonado como uma coisa que vem muito mais de mim do que dos outros, já que não adianta eu reclamar de sociedade liquida quando eu não ligo no dia seguinte nem me importo com o amigo depressivo. Nesse momento, eu entendo, do fundo do coração, uma frase que eu disse por aqui alguns anos atrás.

"Eu me apaixono por pessoas".

Depois de centenas de dias, eu entendo que isso não tem nada, absolutamente nada a ver com a sexualidade de ninguém. E haja coragem para assumir que eu mereço mais do que a ideia besta de que só os casais se apaixonam. Que vida sem graça eles devem levar.

Cresci na obrigação de nomear coisas, mas parece que não é bem assim que as coisas funcionam, mesmo ninguém nunca tendo me contado sobre isso. Não sei quantas vezes eu criei uma senhora expectativa e dei de cara com um coração lacrado, apesar dos indícios de melhora. E hoje eu sei o quanto de vezes que as coisas deram errado por culpa minha.

Nenhuma.

Ser intenso e se apaixonar sempre não é nada mais que uma característica totalmente minha. Não é algo manipulável, apesar de tentar disfarçar. É só algo. Talvez uma coisa da lista que me faz ser exatamente a pessoa que eu sou por dentro, porque me desapaixonar é uma coisa não rola, e nunca rolou.


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domingo, 28 de outubro de 2018

O que vale mais?

Existe uma coisa que é quem sou e outra coisa que é a forma que a sociedade prefere que eu me comporte. Elas são bem distintas, diga-se de passagem, e eu passei a vida toda preocupada em quem ser ou quem me tornar para poder encaixar, mesmo que pouco, nesse molde social. Ou no molde de vidas que eu quero fazer parte, que basicamente significa não ser eu, mas ser qualquer pessoa.

Eu não sou qualquer pessoa. E nunca fui.

Cada gosto, cada escolha, cada letra diz, exatamente, aquilo que eu sou. Cada palavra e cada forma de ver qualquer coisa mostra o resultado de uma lapidação que tem durado anos, mas que eu não quero mais continuar. Uma superficialidade que não faz parte de mim, um medo que eu desconhecia, umas alegrias pequenas que são aquelas famosas migalhas de afeto. Eu mereço mais do que migalhas disfarçadas de afeto.

Eu não sei ser menos do que meu máximo. Eu não sei ser menos do que sincera e clara. Não sei não ser objetiva. E a única coisa que me incomoda não saber é não saber deixar as coisas acontecerem. Claramente eu posso aprender, já que isso influencia minha vida de forma negativa, mas é um fardo. Ficar esperando o "let it go" é torturante e não faz parte da minha lista de ingredientes.

Então o que vale mais? 

Ando sempre entre me sentir alguém incrível por fazer o básico e me sentir um grande lixo por não ver as coisas melhorando, mas eu continuo fazendo o básico. Aquele comentário em forma abraço, aquela vontade de tentar melhorar, aquele respeito pelo próximo. O mínimo do básico, e continuo me sentindo um belo lixo por esperar algum tipo de retorno, sendo que fazer o básico diz algo sobre mim, nunca sobre o outro. Sim, deveria ser o suficiente, mas não é.

Essa carência doida que eu não achei que fizesse parte de mim me faz ver o tamanho da expectativa que eu sempre crio em volta de qualquer coisa. Não consigo só ver como uma característica, já que essa "característica" faz eu me sentir totalmente sozinha na maior parte dos meus dias. Falta algo.

Talvez falte eu mesma. Um grande pedaço de mim mesma.



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