Sempre achei irônico como o meu estereótipo apita para coisas que já não fazem mais parte de mim. A não dependência de drogas lícitas, o pé na caretice, a necessidade de diálogo. Lembro da primeira vez que me foi enfiada uma rotina que eu não esperava e também não queria. Lembro do quão difícil foi levantar na cama nos horários marcados e tomar coisas que só me faziam bem fisicamente. E, sinceramente, acho bem irônico quando eu sou lembrada que nem tudo que faz bem fisicamente, faz bem emocionalmente também. E vice e versa.
Lembro do quanto a minha jovem adulta lutava contra os pontos positivos da rotina, porque onde já se viu eu ter um organismo humano que melhora através de coisas sendo repetidas nos mesmo horários todos os dias, né. Um absurdo.
Inacreditável.
Nesses últimos dias, eu tenho me visto batendo sempre na mesma tecla. E não só sobre a rotina, mas sobre todo o resto também. Sobre toda a falta de respeito comigo mesma, sobre as dores que eu finjo que eu não sinto, o coração que eu defendo que não tenho. E é uma coisa bem doida você bater de frente com quem você é porque é o auge da facada no peito você perceber que você também não sabe lidar com as coisas boas.
Não tem sentido o peso de um dia bom ser o mesmo peso de um dia ruim. Não tem sentido eu não acreditar que eu mereço as alegrias pequenas que eu defendo. Não tem sentido eu achar que eu não mereço sentir no estômago as borboletas que eu tenho sentido.
Eu me ver como alguém que não merece o mínimo é além de injusto. É desleal com a criança que me imaginava passando o cartão de crédito fazendo compras online. Trás a ideia de que eu não posso me permitir ficar ansiosa, de que eu não posso querer ouvir a voz de ninguém nem querer dividir um fone de ouvido para assistir um filme de terror ruim.
Como se eu não fosse uma pessoa. Como se eu não merecesse leveza. Como se eu não merecesse gostar das minhas rotinas e dos meus horários. Como se eu não merecesse dormir em paz por escolhas tomadas em sã consciência para poder recomeçar.
Como se eu não merecesse o mínimo.
E a lista cada vez maior...
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