- O que você quer fazer?
Estou suando. Meu coração disparado, calafrios pelo corpo, mãos molhadas. Faço uma lista de coisas na minha cabeça para tentar lidar com a sensação péssima que eu não paro de sentir.
- Eu não sei...
Sento no chão, pego um café, afago a pet. Sinto o chão, o moletom, os pelinhos passando embaixo da minha mão. Lembro do sonho, dos cheiros, das histórias que eu gostaria de simplesmente não lembrar mais.
Sinto você sentando do meu lado e percebo o quanto nem você acha graça nisso tudo. Não sei dizer o quanto é assustador ficarmos cada vez mais parecidas, ou se isso deveria ser algo bom. Como uma aceitação de que eu sou isso tudo, de que somos isso tudo.
Sou inundada por uma vontade enorme de chorar e toda a lista que eu fiz na minha cabeça desaparece.
- Não é uma lista ruim, mas...
- É uma fuga.
- Sim, é uma fuga.
- Não sei ser mais do que isso agora...
- Só que isso vai continuar aqui quando a lista acabar
- Eu sei...
- Eu vou continuar aqui quando a lista acabar...
- Eu vejo isso depois.
Levantei. Segui a lista. Lembrei de algumas situações específicas e das reações que eu sinto que estão tatuadas na minha cabeça. Lembrei do seu cheiro, que não havia saído da minha cabeça por completo, admito, e me veio uma vontade gigantesca de mandar uma mensagem para atualizar o meu papel de trouxa. Bom, eu já passei dessa fase.
Lembro de uma vez que havíamos conversado sobre segundas chances, e acho que aquela ali já foi a segunda chance que eu achei que eu merecia. E, independente do que eu sinta, talvez esse ciclo já tenha sido fechado e eu esteja completamente apegada a momentos curtos e sensacionais. E aos cheiros. E aos sonhos.
E a uma saudade que eu já não achava que sentia mais.
Entre uma tarefa e outra, as sensações se confundem. A certeza de ser substituível em todas as áreas me faz querer entrar em um buraco e ficar ali por 40 anos enquanto existe uma voz me dizendo que isso é só um momento ruim. Um momento que não para, que não passa, que não melhora.
- Você precisa de alguém...
- Nem.
Termino a lista. São 20h. Meu coração volta a disparar, minhas mãos voltam a suar, meu estômago vira do avesso.
Eu não tenho mais para onde correr.
Deito no sofá e ligo a TV. As lágrimas saem sem aviso prévio enquanto eu sou completamente engolida pela certeza de que todas as coisas que eu acreditei que eu era são mentiras. Que eu não faço nada além do mínimo, que tudo bem ser um ser completamente substituível, que têm dias que não dá.
- E agora? - Você senta do meu lado, se cobre e me observa.
- Eu não sei...
*
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