Estou suando. Coração disparado, acordando aos gritos, mãos tremendo.
- Eu não consigo...
O padrão tem sido essa conversa comigo mesma praticamente todos os dias. Assim como o coração disparado e as mãos tremendo, todos os dias.
Abro o bloco de notas, pego um instrumento, busco uma rima. Uma palavra legal, uma memória divertida, qualquer coisa. As coisas são tantas que eu não consigo alinhar, eu não consigo rimar. Eu não consigo nada.
- Não tem fluído, né.
- Não...
- O que está errado?
Lembro do seu cheiro:
- Eu não lembrava como era sentir tanto...
- É ruim?
- Eu não sei lidar...
- Mas é ruim?
Lembrei de você me perguntando sobre a minha série de conforto e eu falando que não tenho. É claro que eu tenho, mas você não sabe que sempre que você me faz uma pergunta, é como se toda a minha memória fosse apagada e eu tivesse que responder qualquer coisa para não parecer uma pessoa que esqueceu como se fala.
Eu esqueço como se fala, eu esqueço as minhas bandas favoritas, eu esqueço como é ser um ser humano minimamente funcional. E nem precisa pedir muito, porque é como se eu esquecesse como que respira também.
- E?
- E o quê?
- É ruim?
- Não. Mas... É complicado...
- O que é complicado?
Lembrei dos últimos quatro anos e de como eu queria estar onde eu estou agora em relação à isso, só que eu não sei lidar.
- Eu não sei deixar as pessoas me conhecerem e eu não sinto que eu valha o esforço.
Você me encara, confusa:
- Tá, acho que eu não estou entendendo.
Acho engraçado como você consegue estar dentro da minha cabeça e ainda não saber de tudo que rola por aqui.
- Eu entendo, sabe, as pessoas cansarem. Eu nunca dou nada, eu nunca entrego nada, eu nunca consigo ser aquela pessoa que abre as gavetas e mostra a roupa favorita ou que consegue só mandar uma música. Eu me sinto inconveniente, carente. Eu não confio em mim o suficiente para acreditar que, às vezes, alguém pode perguntar alguma coisa porque ela quer saber mesmo e não só por educação. - Te olho e você está quieta, com o rosto confuso, feição fechada. - E, assim, eu sou muito. Sempre fui. E não tem nada que ninguém possa fazer sobre isso.
Enxugo o rosto. Não é o primeiro surto dos últimos dias, mas é o primeiro por eu conseguir falar.
- Isso não faz de você, ou da gente, alguém ruim.
- Só faz da gente alguém que ninguém aguenta por muito tempo, e eu não sei ser menos, eu não sei pensar menos, eu não sei sentir menos. E mesmo sendo tanto, eu não sei mostrar nada disso. Nem um pedaço disso.
- E você quer sair da concha?
Minha cabeça dói, meu estômago revira. Lembrei do soco que a saúde física me deu e do quanto eu não contei para ninguém; lembrei também de outras perguntas que foram feitas que, agora, eu sei a resposta:
- Sim... Mas e se eu for muito?
- Você prefere ser nada?
Eu só queria lidar.
*
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