Voz fofa, violão limpo, pegada folk. Talvez eu já tenha decorado algumas coisas, mas eu ainda lembro das respostas positivas em torno do que era, até então, minha descoberta do ano. Aquela sensação de colo, de aconchego, de abraço. Mesmo eu sempre me denominando alguém que não gosta muito de toques em geral, não posso negar a paz emocional que isso me traz. O álbum, a pegada, o abraço.
E infelizmente eu lembro do cheiro. Essa coisa de decorar coisas que ninguém repara é quase meu inferno particular aqui na Terra. Lembro da dificuldade que foi ouvir isso de novo enquanto meu quarto ainda cheirava você. Lembro dos escritos que eu não mandei, das coisas que eu não fiz, das desculpas que eu me dava por comportamentos que não dependiam de mim. Lembro também de ter criado todo um muro em volta daquilo que eu acreditei que fosse a coisa mais importante em mim: meus (des)apegos emocionais. Lembro de ter jurado para mim mesma que eu jamais deixaria ninguém se aproximar; que não me daria o luxo de mostrar um pedaço do meu universo para alguém que, eventualmente, queira entrar; que não mandaria mensagens engraçadas de bom dia.
Lembro, principalmente, da sua voz me dizendo que não fugiria e do chão se abrindo quando a coisa de concretizou. Mais importante do que me perder nas suas palavras, que agora já não significam nada, era a sensação de que isso nunca ia passar. Era a sensação de que eu nunca ia conseguir ser metade do ser humano que eu fui com você.
Uma vez me disseram que a vida vai jogando coisas na nossa cara até aprendermos a lição. Talvez a minha lição seja que nem tudo que as pessoas escolhem fazer é culpa minha. Porque, convenhamos, eu só decido por mim mesma, e olhe lá.
Mais irônico do que eu aprender que as escolhas dos outros não tem nada a ver comigo, é eu sentir essa vontade súbita de mostrar meu universo particular para alguém que tem tantas garantias quanto eu. Ou seja, nenhuma. Mais doido do que eu permitir quebrar meus muros é encontrar alguém disposto a tentar quebrar seus próprios muros também. Essa coisa de recomeçar a acreditar na reciprocidade é bem apavorante, admito, mas eu não lembrava como era ouvir alguém dizer que eu posso ser quem eu sou de verdade.
Talvez outra coisa que eu tenho que aprender é que as pessoas são diferentes. Mundos particulares, traumas enterrados, universos únicos. Rola sempre esse padrão tosco de relacionamentos rasos.
Bom, eu nunca gostei de padrões.
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