sexta-feira, 27 de março de 2020

E por que não?


— Quer ir para outro lugar?

Minha mão sua, um arrepio chega. Sinto o calor sair das minhas extremidades enquanto o som das suas palavras ecoam na minha cabeça. A pergunta sempre gira em torno do por que não. Afinal de contas, por que não?

A ideia de que algo é errado nada mais é do que meu subconsciente tentando me impedir de ter experiências boas no meio de um ano ruim. Conturbado, arrastado, atropelado. Que me atropelou. Talvez eu tenha deixado, talvez eu não tenha tido a opção, talvez eu só tenha me permitido ser eu mesma e, se isso veio e me arrastou pelo chão me segurando pelos tornozelos, tudo bem. Eu fiz o que eu pude.

Independente de quem eu seja, eu sou eu mesma. Ou o que foi feito de mim mesma.

Sinto seus olhos me olhando, esperando uma resposta. Não sei quem você quer enganar, mas você já sabe o que significa e eu também sei que sua pergunta foi por educação. Eu encosto a boca na sua nuca enquanto sua mão passeia pela minha cintura. Eu conheço essa respiração, você já conhece as minhas caras, os meus vícios, as minhas fugas.

Essa brincadeira de ser intensa me custa sempre a minha máscara de Elsa.

Você mexe no meu cabelo, elogia meu rosto, minhas marcas, minhas cores. Comenta pontos que mexem com o meu ego e tem aprendido a lidar com a minha autoestima confusa e desorganizada, basicamente um reflexo da vida de quem quer tudo e não tem conseguido criar uma lista de prioridades.

Nesses pequenos espaços entre ser a pessoa que eu preciso ser e tirar todos os meus filtros, a segunda opção me devolve asas que eu não lembrava que eu tinha, porém que eu mereço ter. Que eu mereço agarrar com as duas mãos e deixar que todas aquelas dúvidas sobre mim mesma existam sem me engolir por inteira.

E a minha intensidade, como sempre, pecando pelas sobras.

Realmente, não sei mais como manter a minha máscara de Elsa.


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