sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

Romance e a ideia da dificuldade, porque algumas coisas nunca mudam

 Vejo um filme onde a protagonista ganhou uma flor diferente que só fica desabrochada durante 4h por ano. As amigas suspiram achando o máximo. "Que romântico" é o resumo do coro.

- Não é muito o seu tipo de romance, não é?

Não te vejo, de fato, mas você não é nada mais do que eu mesma.

- Não deveria ser o "tipo de romance" de ninguém.

Te imagino no canto do sofá, com seu vestido vermelho de fenda.

- Às vezes é difícil discordar. Por que você não acha que esse deveria ser o tipo de romance de alguém?

- Você sabe a resposta.

Ela cruza as pernas e me encara com leveza. Acho que é a primeira vez que não busco discussão, que não tento expulsá-la, que não me incomodo com a sua presença.

- Romance não deveria ser raridade. Atos românticos não podem ser genéricos, raros. Defender a ideia de que raridade e romance andam de mãos dadas parece que deixa qualquer relação fadada à rotina de uma forma negativa quando ninguém se esforça para achar cavalos com chifre. Porque se você pára, você não se importa. E todo mundo sabe que a real é que ninguém consegue ser criativo e místico o tempo todo.

Ela me observa enquanto eu esqueço, por alguns segundos, da existência de vírgulas.

- O que é romance para você?

Meu calcanhar de Aquiles.

- Faz diferença?

- Deveria.

- Romance é regar a planta todos os dias para poder tê-la por mais tempo. É saber a temperatura da água, a pizza preferida, beijar de surpresa. Romântico, para mim, é fazer planos comuns de final de domingo. É cobrir dormindo, esquentar a água para o café, deixar a azeitona no canto.

Me sinto cansada, atropelada. 

- Tudo que você já faz.

- Que nós fazemos. 

- Sim, fazemos.

- E não fez diferença no final...

Ela me olha com ternura quando a primeira lágrima começa a escorrer.

Mesmo sabendo que somos a mesma pessoa, é incrível o quanto te transformo em algo não passível de acolhimento, de empatia, de abraço. Incrível como eu trato você da forma que eu me trato.

- Você sabe que existe um mundo fora de vocês e que todo mundo luta contra algo diferente todos os dias, não sabe?

- Eu sei que eu não estou lutando. Fique o tempo que você quiser, onde você quiser. Pegue a cama, o café da garrafa, a bolacha.

- Você cansou de lutar...

- Sim, eu cansei de lutar. 

- Você ainda ...?

- Todos os dias, você sabe... - Respiro fundo. - E não deveria.

- Não deveria sonhar?

- Deveria. Mas comigo.

- E por que não sonha?

Soluço. Encaro o nada, enxugo as lágrimas. Observo a mascote que parece um pedacinho de nuvem e que não faz ideia por quê eu fico buscando algo em lugar nenhum.

- Eu estou cansada, exausta.

- Então descansa. Não conhecemos o outro. Só conhecemos, no máximo, nós mesmos. E você, nem isso...

Eu já não controlo mais. A visão toda borrada me faz perdê-la de vista enquanto saio do sofá e abro o tapete vermelho no meio da sala. Sento em câmera lenta observando o relógio sem enxergá-lo e ouvindo passos da nuvenzinha inocente pela casa

- Descansa - Você sussurra dentro de mim -, mas não pára. 

Respiro, solto.

- Eu preciso cuidar...

- De nós.



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