Vejo um filme onde a protagonista ganhou uma flor diferente que só fica desabrochada durante 4h por ano. As amigas suspiram achando o máximo. "Que romântico" é o resumo do coro.
- Não é muito o seu tipo de romance, não é?
Não te vejo, de fato, mas você não é nada mais do que eu mesma.
- Não deveria ser o "tipo de romance" de ninguém.
Te imagino no canto do sofá, com seu vestido vermelho de fenda.
- Às vezes é difícil discordar. Por que você não acha que esse deveria ser o tipo de romance de alguém?
- Você sabe a resposta.
Ela cruza as pernas e me encara com leveza. Acho que é a primeira vez que não busco discussão, que não tento expulsá-la, que não me incomodo com a sua presença.
- Romance não deveria ser raridade. Atos românticos não podem ser genéricos, raros. Defender a ideia de que raridade e romance andam de mãos dadas parece que deixa qualquer relação fadada à rotina de uma forma negativa quando ninguém se esforça para achar cavalos com chifre. Porque se você pára, você não se importa. E todo mundo sabe que a real é que ninguém consegue ser criativo e místico o tempo todo.
Ela me observa enquanto eu esqueço, por alguns segundos, da existência de vírgulas.
- O que é romance para você?
Meu calcanhar de Aquiles.
- Faz diferença?
- Deveria.
- Romance é regar a planta todos os dias para poder tê-la por mais tempo. É saber a temperatura da água, a pizza preferida, beijar de surpresa. Romântico, para mim, é fazer planos comuns de final de domingo. É cobrir dormindo, esquentar a água para o café, deixar a azeitona no canto.
Me sinto cansada, atropelada.
- Tudo que você já faz.
- Que nós fazemos.
- Sim, fazemos.
- E não fez diferença no final...
Ela me olha com ternura quando a primeira lágrima começa a escorrer.
Mesmo sabendo que somos a mesma pessoa, é incrível o quanto te transformo em algo não passível de acolhimento, de empatia, de abraço. Incrível como eu trato você da forma que eu me trato.
- Você sabe que existe um mundo fora de vocês e que todo mundo luta contra algo diferente todos os dias, não sabe?
- Eu sei que eu não estou lutando. Fique o tempo que você quiser, onde você quiser. Pegue a cama, o café da garrafa, a bolacha.
- Você cansou de lutar...
- Sim, eu cansei de lutar.
- Você ainda ...?
- Todos os dias, você sabe... - Respiro fundo. - E não deveria.
- Não deveria sonhar?
- Deveria. Mas comigo.
- E por que não sonha?
Soluço. Encaro o nada, enxugo as lágrimas. Observo a mascote que parece um pedacinho de nuvem e que não faz ideia por quê eu fico buscando algo em lugar nenhum.
- Eu estou cansada, exausta.
- Então descansa. Não conhecemos o outro. Só conhecemos, no máximo, nós mesmos. E você, nem isso...
Eu já não controlo mais. A visão toda borrada me faz perdê-la de vista enquanto saio do sofá e abro o tapete vermelho no meio da sala. Sento em câmera lenta observando o relógio sem enxergá-lo e ouvindo passos da nuvenzinha inocente pela casa
- Descansa - Você sussurra dentro de mim -, mas não pára.
Respiro, solto.
- Eu preciso cuidar...
- De nós.
*
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