Estou deitada na minha cama enquanto observo a pet comer.
- Se existe uma carinha mais fofa, nunca foi mostrada para ninguém.
Te vejo sentada aos meus pés. Vestido vermelho, como sempre, e impecável, como sempre. Em vários momentos você esteve errada, só que esse não é um desses momentos.
- Eu sinto que ela merece muito mais do que a gente...
Ela sai pulando feliz e contente enquanto nós duas a observamos.
- O que seria mais do que a gente?
- Alguém mais inteira. Que oscila menos, que cai menos, que se mantém por mais tempo do que eu. Do que a gente. Alguém que...
- Ame menos? - Sinto um calafrio percorrer minha espinha. - Sabe, eu lembro de algumas vezes que eu apareci e você ainda não havia entendido que eu sou apenas uma parte de você.
- E o que mudou?
- Me diz você. O que mudou?
- Em relação à nós ou no geral?
- Começamos pelo geral.
- Bom, as relações, principalmente. As pessoas têm mudado e eu estou sempre tentando não levar partes de ninguém nem deixar que ninguém leve minhas partes.
- E como tem sido?
- Eu continuo sendo um misto do que sobra com o que as pessoas me dão. Eu ainda me preencho com restos e eu sinto que eu não aprendo...
- E por que você sente que você não aprende?
- Porque eu queria...
- Amar menos?
Ok, isso já está ficando chato.
- Tá, e se for amar menos e ser menos? Qual o problema em querer ser menos e parar de fazer tudo passível de história e tudo passível de rima? Qual o problema em querer só ser alguém que se encaixa e que acha o máximo histórias comuns?
- Não tem problema nenhum em ser menos. Na verdade, não é menos, é só diferente de você. Qual o problema em ser você?
- Todos.
- Todos quais?
- É linda a ideia geral que as pessoas têm em relação à pessoas que sentem demais. O poeta brega, o músico romântico e toda essa parafernalha linda que a mídia adora ganhar milhões em cima de livros baseados em romances impossíveis, mas a realidade é tão merda. Me sinto exausta de escrever para pessoas que nunca vão saber e de sentir coisas que não vão virar nada além de músicas aleatórias no meu bloco de notas. Me sinto atropelada pelas coisas de mentira e sinto uma certeza gigantesca que isso é o máximo que eu vou ter na vida. - Você me olha. Eu sinto você me observar e nem preciso tirar os olhos da tela do computador para ter certeza. – Eu não aguento mais ser sempre muito e sentir sempre muito e não tem nada que eu possa fazer sobre isso...
Lembro de pedaços e escolhas que eu fiz tendo total certeza que seriam para sempre. Me sinto absurdamente ingênua, em um nível que, sinceramente, não consigo sequer argumentar.
- Você tentou.
- Mas e daí? – Sinto uma lágrima escorrer.
- E daí que a maioria das pessoas nem tentam.
- Ouvi essa frase esse final de semana. E você sabe.
- E você se poda. E você sabe.
Mais uma que ela não está errada.
- Me sinto perdida, cansada. Eu não sei quantas vezes eu já recomecei e em todas elas eu terminei exatamente onde estamos agora.
- Agora temos um pet. As coisas não são sempre as mesmas, e eu sei que é muito fácil eu falar, só que elas não são. Que bom que você tem sentido isso que você tem sentido e transformado isso em algo produtivo, mesmo que seja apenas uma borda de cores diferentes no seu bloco de notas. Que bom que você esteve aberta a viver coisas que você não estava aberta 5 anos atrás. Que bom que isso tudo dentro de você tem virado algo, porque a gente sabe o que acontece quando não vira nada. A gente sabe das crises, das doenças, do excesso de remédios. Que bom que você sabe que você ama de mais e escreve de mais, e que bom que você entendeu que isso é seu.
- Mas o que eu faço com isso? Com isso que eu sinto crescendo?
- Abraça e lida. Igual você fez comigo.
Me sinto abraçada, só que por dentro. Sorrio de leve e observo a pet, que voltou para o local de origem.
- Você tem razão.
- Sobre?
- Não existe nada mais fofo do que essa carinha mesmo, não.
- Nem vai.
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