sábado, 24 de setembro de 2022

Mini sudoku

    Encontrei na gaveta o presente que você me deu. Considero a palavra "presente" como algo forte, levando em conta que são páginas quadriculadas, com números faltando e níveis diferentes para eu me sentir evoluindo de alguma forma. Na época, achei fofo o gesto de carinho, admito, e inclusive foi a única coisa que eu guardei de você. Talvez por não ser algo relacionado a você, de fato, porém relacionado a mim. Lembro que foi uma discussão entre os eus que vivem na minha cabeça sobre o peso que isso teria e se eu conseguiria ver apenas como uma revista de entretenimento. Bom, hoje ela é apenas uma entrevista de entretenimento.

    Lembrar quem deu não me faz querer você de volta e, muito menos, sentir sua falta.

    Ela me lembra de reconstrução, recomeço, permissão. E, inevitavelmente, me lembra do tanto de coisa que eu precisei reconstruir depois que você decidiu ir embora. E tudo bem, sabe, passar por isso, até porque todo mundo passa mesmo e eu faço parte do grupo como um todo, só que o quanto eu me privo por medo de acontecer algo parecido é algo que foge do meu controle. O medo que eu tenho de afundar na mesma lama em outras relações é algo que ultrapassa o "medo normal" e me torna alguém que não sabe mais nem ser sozinha nem criar conexões. 

    Eu acho irônico eu ter me tornado a pessoa mais emocionada que eu conheço e que não sabe receber afeto, sendo que tudo que eu mais quero aprender hoje é exatamente a receber afetos.

    Minha psicóloga diria que eu deveria querer aprender a ser sozinha, mas pode ser que se eu soubesse receber afetos, eu talvez não teria tanto medo de ficar apenas comigo mesma. Sim, isso é uma grande desculpa, já que não tem ninguém me abraçando de conchinha num sábado a noite, no auge da minha solteirisse.

    Esses dias ela me disse que as pessoas não sabem se relacionar. Bom, aparentemente nem eu.

    Percebi que eu fui voltando a ouvir as músicas que eu te mostrei, e o quanto as dores eram outras. Não era mais uma dor de ausência de você, era uma dor de me sentir ingênua por ter acreditado em alguém daquela forma, e me entregado daquela forma. Era algo como uma culpa por ter sido vulnerável ao ponto de te contar todas as coisas do meu dia e acreditar que tudo bem eu receber 15% do que eu fazia, já que aquilo era seu máximo.

    Não que faça diferença na prática hoje, só que eu fico o auge da felicidade quando alguém me faz mais do que 15%. E não, eu não deveria ficar o auge da felicidade por receber 1,5 de 10.

    Sabe, hoje eu admito várias coisas que venho fugindo da última copa do mundo para cá. E que, convenhamos, vira e mexe esse sentimento me jogava na parede e me fazia lembrar que ele sempre esteve ali, e hoje eu abri a gaveta de fato, e o encaro de fato. 

    E não tem nada que eu possa fazer. Ele não foi dissipado nos últimos 4 invernos e provavelmente não vai ser até o próximo. A real é que eu quero plantá-lo e regá-lo, mesmo sentindo que não vai acontecer. 

    Repara que essa última frase não é bem minha. Ela é daquilo que você deixou aqui quando saiu, e agora eu preciso me lembrar que eu mereço receber mais do que o mínimo e que eu também não estou pronta para relações, mesmo criando várias fanfics diferentes todas as noites.

    Várias coisas me deixaram nesses anos, mas meu lado de escritora brega continua aqui.

    Espero que algum dia eu consiga ser com alguém a pessoa leve e fácil que eu fui com você. Que eu consiga reconstruir essa parte a ponto de não me sentir culpada por sentir saudades de alguém ou por entregar algo brega em um dia de chuva.


E quando eu terminar o sudoku, eu vou jogar fora.



*





Nenhum comentário:

Postar um comentário