Queria te contar que escrevi para você. E escrevo, na verdade, com muito mais frequência do que eu gostaria, até porque eu não gosto de admitir esse meu lado que mal usa vírgulas, que não encurta as orações, que não coloca tantos pontos finais. E é complicado, sabe, quando as coisas começam a vazar e eu me pego ultrapassando uma lista de limites que eu não deveria.
E nada justifica.
As coisas que eu sinto, as minhas lacunas, a minha saudade. Nada justifica eu perder o controle das coisas e simplesmente achar que eu estou passando por algo pior. Bom, eu não estou, e eu tenho certeza disso.
Queria te contar que eu fiz uma carta de desculpas e que eu fiz uma entrevista de emprego que é o próprio sugo do capitalismo, com um salário beirando o mínimo e uma cobrança que beira o máximo que o corpo consegue dar. Queria te contar que saí da entrevista fazendo as contas e me dei conta que eu cheguei na idade de que fazer o mínimo direito, pagando as contas, é o suficiente para mim hoje.
Queria te contar que me sinto uma pessoa horrível e que, nessa carta de desculpas, eu jogo na roda que você merece uma pessoa melhor. Porque você merece mesmo. Porque eu sou insegura, confusa, bagunçada. Porque eu não sei uma lista enorme de coisas e que, mesmo eu estando disposta a aprender, você não é obrigada a ter paciência enquanto eu aprendo a fazer o mínimo.
Queria te contar que eu queria ter coragem de sumir. Que eu me sinto péssima por não conseguir só ficar na minha e deixar o universo fazer o trabalho dele, sabe. Que eu não sei só confiar dessa conexão bizarra que a gente tem, mesmo a gente sempre se trombando e sempre retornando, de forma ou outra.
Eu queria acreditar mais no universo e duvidar menos de mim. Mesmo que eu tenha uma semente tentando me convencer que nós somos mais do que isso, eu tenho um medo enorme de que eu seja só isso e que toda a minha crença e evolução acabem aqui.
Hoje me peguei listando os motivos que me fazem sentir tudo isso, e todos eles vêm de você. Reparei também que é a primeira vez que eu me permito sentir e o quanto eu não fazia ideia da dimensão dessa coisa que vive escondida aqui dentro há tanto tempo. E agora eu não sei o que fazer com esse amontoado de sentimento atrasado, que espreme a minha ansiedade e me lembra, ou me engana, todos os dias, que eu não sou metade da mulher que as pessoas dizem que eu sou.
Você ativa em mim uma vulnerabilidade que eu não sei lidar. Que não é ativada com frequência, que quase nunca aparece, que eu tenho vontade de fazer sumir.
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