Fazia um tempo que não te via. Uns pássaros que eu reconheço fazem um barulho que eu não curto muito, um cantor de punk estilo anos 2000 toca no meu reprodutor de música pirata enquanto eu espero o frango fritar.
Lembrei de um curso de escrita que me fez começar a reparar no tempo verbal que eu escrevo. Têm uns desafios bacanas sobre isso, aliás. Eu nunca havia reparado nos meus tempos verbais e hoje eu venho tentando usar o máximo de tempos possíveis.
- Qual seu medo? - Você envelheceu e amadureceu comigo. Não vejo mais tanta arrogância nem tanta adrenalina que vazava do seu olhar uns anos atrás. Hoje você não me afronta, justamente por eu não te afrontar. Vejo sua perna através da fenda de sempre. É visível que você anda malhando.
- Ser medíocre.
- Quão medíocre?
Nossa, moça.
- Medíocre a ponto de não gostar do que eu sei. A ponto de achar pouco as coisas que eu faço, a ponto de não querer tentar algo novo mais. Aquela pessoa medíocre que desiste por preguiça, sabe.
- Você se descreveu durante essa semana, e você sabe que temos semanas e semanas. - Você chega mais perto e me olha nos olhos enquanto eu olho fixamente para a página aberta. - Você não tem medo de ser medíocre, você tem medo de falhar.
Eu fecho os olhos por um segundo. Lembro do frango, da roupa na máxima, da louça na pia, da sujeira no chão:
- Já me sinto falhando. Já perdi a rotina, já acumulei a louça, já levantei meio dia. Tenho almoçado no horário do café, tenho trocado os momentos de estudo por qualquer coisa que possa me trazer uma pequena sensação de fuga. Eu já falhei. - Pausa. Eu não sei se eu tenho mais para falar, eu não sei se ela vai me jogar outra pedrada, eu não sei muito bem o que esperar dessa conversa. - Eu só não quero me sentir tão medíocre...
- Então você sabe que você não é medíocre? Que o ano só trouxe coisas pesadas e que você se encontrou lidando com o que sobrou? Você reparou que a gente nem briga mais?
Ok, a gata de vermelho tem um ponto.
Ajeito o óculos, estralo o pescoço, sorrio de leve. Sinto seu cheiro, que é o meu, enquanto você se aproxima:
- Talvez mediocridade não seja ter pausas. Quando a gente se cansa, a gente descansa. Você só precisa descansar, e almoçar. Daqui uma hora a gente tenta de novo.
Arrumo o prato, preparo a série, faço um suco.
Daqui uma hora eu tento de novo.
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