Sobre o luto, Lacan diz que "a dimensão intolerável oferecida à experiência humana, não é a experiência da própria morte, que ninguém tem, mas a da morte de um outro".
"Dimensão intolerável".
Procurei a definição do dicionário também. Nele diz: "Sentimento de tristeza e dor causado pela perda de alguém ou alguma coisa querida." Um pouco de leitura e você encontra também que o luto se enquadra em finais de relações, de ciclos, de sonhos. Todo mundo passa por uma lista enorme de lutos que ninguém nem finge que respeita, enquanto a gente luta toda noite contra um urso pardo na hora de dormir.
Eu sempre defendi que conhecemos as pessoas que precisamos conhecer e que todo mundo que entra na nossa vida, deixa um pouco delas, e que quando elas se vão, elas levam um pouco da gente também. Eu acredito de verdade que somos, basicamente, uma construção diária de retalhos bordados e deixados por todo mundo que vai e que vem. Alguns retalhos são feitos com mais cuidado, com maior atenção, e quando algum ciclo se rompe, o retalho não é rasgado. Ele se descostura e fica ali, um espaço, que eventualmente se preenche, seja com você ou seja com um outro. E isso é, querendo ou não, um jogo de permissão. Afinal, o quanto eu permito que você costure um pedaço de você em mim? O quanto eu me garanto que, se, ou quando, você se for, esse espaço vazio não vai me descosturar por completo?
Bom, eu nunca me garanto. E hoje eu não sei bem o que sobra. Eu também não permiti muita coisa, porém eu continuo aqui, não sabendo direito o que sobra.
Diretrizes indicam que o processo de reconstrução começa a partir dos 6 meses. Não é uma regra, lógico, mas é uma média, que varia tanto em relação ao grau de parentesco quanto à história pessoal.
"História pessoal".
Eu não sou mais a mesma pessoa. Tem uma música do Jão que diz "Eu quero ser maior, eu quero ser melhor, me quero mais bonito/eu quero estar contente mas eu simplesmente não consigo" e antes eu associava isso somente a depressão e ficava me questionando como que aquele homem queria estar mais bonito - até porque, olhem aquele rosto -, mas hoje eu entendo. Porque, né, olhem o meu rosto.
Eu já fui maior, melhor, mais bonita. Já estive mais disposta a convencer as pessoas de mim mesma, de mostrar minha lista de coisas legais, de lembrar que é uma fase ruim - e é.
Hoje eu espero que não desista, porque eu sei que dentro de todo esse mar de medo e groselha, tem alguém que ainda canta e tenta rimar palavras aleatórias no bloco de notas.
- Você está no luto, né
- Sim...
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